PONTOS DE ÔNIBUS são, por definição, locais onde os moradores das cidades embarcam para suas pequenas viagens do dia-a-dia. Os trabalhadores, para suas lidas; os estudantes, para suas jornadas; e todos os que dependem do transporte coletivo, para seus afazeres cotidianos, quando eles estão além de onde os pés alcançam.
Mas a parada da entrequadra 712/713, na W3 Norte, vai levar bem mais longe. A partir desta quinta os brasilienses poderão embarcar dali para o mundo da imaginação e do conhecimento, através de outro tipo de transporte coletivo: os livros da Ponto Cultural – Biblioteca Popular, que vai funcionar 24 horas por dia emprestando gratuitamente livros para a população.
O acervo da Ponto Cultural começa com seis mil exemplares de literatura, livros didáticos e livros de referência. Mas já no dia da inauguração ficará maior: o músico e escritor Jorge Mautner, padrinho da biblioteca popular, já avisou que chegará a Brasília pronto para doar duas caixas de sua antologia e mais todos os livros que conseguir arrebanhar em sua própria biblioteca e nas de seus amigos.
“É um projeto belíssimo, uma coisa do maior interesse de todos e especialmente nosso, dos escritores, que precisamos estar perto do público, precisamos de leitores. Eu tenho falado disso por onde passo e ficam todos encantados de uma coisa dessas estar acontecendo em Brasília”, festeja Mautner.
A Ponto de Cultura será instalada exatamente atrás da parada de ônibus, sob uma tenda, e emprestará os livros a qualquer pessoa, mediante o preenchimento de um cadastro mínimo (nome e identidade, que não serão conferidos). Os livros estarão em prateleiras abertas e dentro de um armário especialmente projetado para acondicioná-los, com um mecanismo rotativo que facilita a busca dos títulos.
No horário comercial, um atendente irá manipular os livros, orientar os usuários e estimular os passantes a embarcar na viagem da leitura. No restante do tempo, os próprios interessados podem escolher os livros e tomar o empréstimo, anotando num caderno próprio seu nome e o nome da publicação e comprometendo-se a devolvê-la dentro de um prazo razoável. Do jeitinho que a gente vê no cinema! Só ficarão guardados no armário durante e noite os livros mais procurados, sobre os quais a biblioteca deva manter um maior controle.
Luiz Amorim, presidente da ONG T-Bone e criador da Ponto Cultural, acredita que esse sistema de trabalho, baseado na confiança e na responsabilidade dos usuários, estreitará os laços da comunidade com a biblioteca. A comunidade passará a cuidar dos livros como seus, coibindo o mau uso e eventuais desvios. E o lugar, ele aposta, ficará mais seguro.
“Nós estamos tratando de livros, o que quer dizer conhecimento, educação e crescimento humano. Não podemos partir de outros pressupostos que não os da confiança e do respeito. Além disso, queremos que os pontos de ônibus sejam locais seguros. Quando tomamos uma iniciativa dessas, esperamos que o poder público também faça a sua parte, garantindo uma boa iluminação e aumentando o policiamento para inibir a ação de vândalos, que eu acho que são nossa única ameaça.”

A inauguração da biblioteca será com um dia inteiro de festa. Começa às nove da manhã, com oficina de artes e “contação” de histórias para crianças de escolas públicas. Do meio dia às duas da tarde haverá apresentações de música erudita com o Quarteto de Cordas de Brasília, dirigido pelo maestro Guerra Vicente, e do também maestro e pianista Rênio Quintas. À tarde tem pintura, exposição cartográfica e apresentação do grupo Pau Pereira, de cultura popular. À noite, recital de poesia, bate papo sobre literatura e uma performance do padrinho Jorge Mautner, que encerra a festa abençoando, com seu violino sagrado, a tão bem-vinda afilhada.
Ponto Cultural – Biblioteca Popular 24 horasPonto de ônibus da 712/713 Norte
Inauguração: 21/6, quinta-feira, com programação das 9h da manhã às 9h da noite, encerrando com apresentação de Jorge Mautner